Por que você não deveria tratar qualquer má digestão com enzimas

por Taise Spolti

É bem provável que você já tenha sentido aquela digestão pesada depois de uma refeição maior, mais gordurosa ou com alimentos que fermentam mais no intestino. Barriga estufada, gases, arrotos, queimação e desconforto são queixas comuns, e é justamente nesse cenário que as enzimas digestivas aparecem como solução rápida.

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Mas, como quase tudo em saúde digestiva, não é tão simples assim. As enzimas digestivas são proteínas que ajudam o organismo a quebrar os alimentos em partes menores para que possam ser absorvidos. Elas existem naturalmente no corpo e são produzidas em locais como boca, estômago, intestino delgado e, principalmente, pâncreas.

Entre as mais comuns: a amilase ajuda a quebrar carboidratos; a lipase atua sobre gorduras; as proteases participam da digestão de proteínas; a lactase quebra a lactose (o açúcar do leite); e a alfa-galactosidase ajuda na digestão de alguns carboidratos presentes em alimentos como feijão, lentilha, grão-de-bico e soja.

Ou seja: cada enzima tem uma função. Elas não são um “limpador geral” do sistema digestivo, nem um passe livre para exagerar na alimentação.

Entre as enzimas mais usadas atualmente, a lactase é uma das mais conhecidas. Ela pode ajudar pessoas com intolerância à lactose a consumir leite e derivados com menos sintomas. Quando há pouca lactase no intestino, a lactose chega mal digerida ao cólon e é fermentada pelas bactérias, o que pode gerar gases, cólicas, distensão abdominal e diarreia.

Ainda assim, vale uma observação importante: a lactase ajuda na digestão da lactose, mas não trata alergia à proteína do leite. São condições diferentes. E para quem abusa do consumo, usando as enzimas como válvula de escape, é um sinal de alerta crítico: a situação piora com o passar dos anos.

Outra enzima bastante comum é a alfa-galactosidase, usada para reduzir gases associados ao consumo de leguminosas e alguns vegetais. Ela atua sobre oligossacarídeos, carboidratos que o nosso organismo não digere muito bem e que acabam sendo fermentados no intestino. Para algumas pessoas, pode fazer diferença.

Já a pancreatina é outro assunto. Ela reúne enzimas pancreáticas, como lipase, amilase e protease, e é usada no tratamento da insuficiência pancreática exócrina, quando o pâncreas não produz ou não libera enzimas suficientes para digerir os alimentos. Isso pode acontecer em pancreatite crônica, fibrose cística, câncer de pâncreas, cirurgias pancreáticas ou gastrointestinais. Nesse caso, não estamos falando de um suplemento qualquer, mas de uma terapia de reposição enzimática com indicação médica.

Nas farmácias de manipulação e em suplementos prontos, também é comum encontrar fórmulas chamadas de “complexos enzimáticos”. Elas podem combinar bromelina, papaína, pepsina, amilase, lipase, protease, lactase, pancreatina, celulase, hemicelulase e outras enzimas.

A proposta parece interessante: uma fórmula para ajudar a digerir proteínas, gorduras, carboidratos, fibras e lactose. Mas a presença de várias enzimas em uma cápsula não significa, automaticamente, que ela será eficaz para qualquer desconforto.

Isso porque azia, refluxo, gastrite, constipação, síndrome do intestino irritável, doença celíaca, problemas na vesícula, intolerâncias alimentares e até estresse podem causar sintomas parecidos. Se a causa não for investigada, a enzima pode virar apenas uma forma de mascarar o problema. Também é preciso cuidado com algumas promessas: a bromelina, do abacaxi, e a papaína, do mamão, são enzimas que quebram proteínas. Elas aparecem muito em fórmulas digestivas, mas a evidência para tratar refluxo, gastrite ou “má digestão” inespecífica ainda é limitada. Além disso, podem causar reações alérgicas em pessoas sensíveis a abacaxi, mamão, látex, kiwi ou figo.

Outro ponto de atenção é a betaína HCl com pepsina. Ela costuma ser vendida como apoio para baixar a acidez do estômago, mas não deve ser usada sem orientação. A betaína HCl é acidificante e pode piorar queimação, refluxo, gastrite erosiva e úlceras. Também pode interferir com medicamentos usados justamente para reduzir a acidez gástrica.

Um detalhe importante: enzimas não devem ser avaliadas apenas em miligramas. O mais relevante é a atividade enzimática, que pode que pode aparecer em unidades como ALU, FCC, FIP, GalU ou unidades de lipase. Dois produtos com a mesma quantidade em miligramas podem ter potências muito diferentes.

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